O atual ataque a Teerã, executado por Israel com apoio logístico dos Estados Unidos, foi justificado sob o risco iminente de um Irã nuclear. Mas os relatórios mais recentes da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) não confirmam que o Irã esteja construindo uma arma nuclear — apenas indicam que o país mantém urânio altamente enriquecido em níveis acima de 60%, o que o aproxima do chamado “grau armamentista”. Ou seja, o relatório confirma que não há uma bomba, mas a existência desse material sensível permite suposições — e elas têm peso.
Em 25 de março deste ano, Tulsi Gabbard, atual Diretora de Inteligência Nacional dos EUA no governo Trump, afirmou em depoimento juramentado ao Senado que o Irã não estava fabricando uma bomba atômica. A fala reforçou o conteúdo dos relatórios técnicos da AIEA.
O momento do ataque chama atenção porque coincidiu com três acontecimentos paralelos:
- (a) denúncias de crimes contra a humanidade e falhas na distribuição de mantimentos em Gaza;
- (b) retomada das negociações entre EUA e Irã sobre o programa nuclear iraniano;
- (c) crescente pressão interna sobre o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu por acusações de corrupção.
O timing da ofensiva, somado à ocupação do espaço aéreo iraniano por forças dos EUA — o que indicaria o fracasso das negociações —, e à ausência de provas de um programa nuclear militar em andamento, sugerem que o verdadeiro motivo dos ataques não foi a defesa do “mundo livre do terrorismo e do barbarismo”, como afirmou Benjamin Netanyahu.
Oportunismo? Talvez. Mas é certo que, nesse contexto, a retórica do “risco nuclear” funciona como ferramenta de duplo uso: fragiliza a legitimidade internacional do governo iraniano e blinda politicamente Israel — especialmente diante do apoio contínuo que recebe dos EUA.
De acordo com a BBC, o programa nuclear iraniano é considerado uma questão sensível desde o governo de George W. Bush. Em 2003, ainda sob sua presidência, a AIEA publicou um relatório revelando omissões e violações do Irã em relação ao seu programa nuclear — esse documento foi um ponto de virada na percepção internacional.
Embora com enfoques distintos, Barack Obama e Donald Trump tentaram deter o avanço do programa nuclear iraniano, com receio de que o país desenvolvesse armas nucleares — “o que alteraria o equilíbrio de poder no Oriente Médio e, segundo muitos especialistas, poderia incentivar a proliferação de armas nucleares na região”, como destaca uma matéria da BBC citada pelo G1.
As revelações do relatório de 2003 deram início a um ciclo de pressão diplomática que culminou, em 2015, na assinatura do Plano de Ação Conjunta Global (JCPOA), envolvendo o Irã e os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, além da Alemanha.
Do que trata o acordo
Segundo a BBC, o acordo — com implementação iniciada em janeiro de 2016 — estabelece um teto para o estoque de urânio enriquecido do Irã, material que pode ser usado tanto para reatores civis quanto, potencialmente, para armas nucleares.
Mas em 2018, o então presidente Donald Trump anunciou a retirada dos Estados Unidos do JCPOA e reimpôs sanções que haviam sido suspensas durante o governo Obama. Na ocasião, Trump alegou que o acordo não impedia o Irã de enriquecer urânio e que o país continuava a patrocinar o terrorismo, podendo desencadear uma corrida armamentista no Oriente Médio.
Um ponto de inflexão: os mísseis
Entre as novas condições apresentadas por Trump para aliviar as sanções, uma ganhou destaque: a inclusão explícita da ideia de que os programas de mísseis balísticos e o desenvolvimento de armas nucleares são inseparáveis. A proposta previa que o avanço de qualquer desses programas — mesmo que em estágios iniciais — poderia justificar novas sanções.
Segundo análise publicada pela Al Jazeera, esse ponto tocava diretamente numa questão estratégica para o regime iraniano: seus mísseis balísticos são considerados o principal impedimento técnico e simbólico contra os EUA e seus aliados regionais — Israel, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos.
Em artigo publicado pela Al Jazeera ainda em 2018, o analista Marwan Kabalan descreve como essa lógica dissuasiva funciona na prática:
“Se atacado, o Irã planeja atingir instalações vitais na Arábia Saudita e em outros países do GCC, como refinarias de petróleo, usinas hidrelétricas e sistemas de dessalinização de água. Se esses mísseis forem retirados do Irã, seu exército ficará ineficaz”
A fala explicita como o poder de dissuasão do Irã não é apenas militar, mas estratégico: visa criar custos humanos, econômicos e logísticos inaceitáveis para os seus rivais regionais
Ou seja, ao vincular os mísseis a uma ameaça nuclear futura, Trump não apenas questionava a capacidade bélica do Irã — mas reforçava uma doutrina de proteção da ordem regional pró-EUA. Uma dissuasão convencional, quando um país tenta evitar que o outro ataque, ameaçando reagir com força maior (como a de um míssil de médio ou longo alcance com ogiva não nuclear, por exemplo), já oferece vantagem estratégica. Se houver qualquer suspeita de que tal míssil possa um dia carregar uma ogiva nuclear, a narrativa se torna explosiva no plano político.
Aos olhos de Teerã, os mísseis funcionam como escudo existencial — uma resposta assimétrica a ameaças externas, como tentativas de mudança de regime. Por isso, a atual ofensiva israelense não é apenas sobre o programa nuclear iraniano. É sobre o direito do Irã de disputar influência em uma ordem regional dominada por aliados dos Estados Unidos.




