Rondônia: “Se o governo abrir mão da gestão na saúde, as decisões deixarão de ser públicas” diz presidente do Sindicato dos Médicos
Declaração ocorreu em meio a questionamentos sobre o modelo de administração da rede pública em Rondônia.

Falta de estrutura e materiais, excesso de contratos emergenciais sem a realização de concursos, defasagem salarial e promessas não cumpridas pelo governo compõem o cenário de alerta relatado por representantes da saúde em Rondônia, um ano antes das eleições. Eles também criticam a pressa do Executivo estadual em entregar a gestão administrativa dos hospitais para empresas. As declarações foram feitas no podcast Põe na Bancada, do grupo SGC de comunicação.
No podcast, o presidente do Sindicato dos Médicos em Rondônia (SIMERO), Luiz Maiorquim comentou que a greve dos servidores não aconteceu de uma hora para outra. Ela foi uma resposta ao conjunto de decisões do governo estadual, que ao invés de investir em melhorias de infraestrutura, tentou contratar empresa para gestão de recursos da saúde, além de inaugurar hospital que opera apenas com 50% dos leitos ocupados em Guajará-Mirim, mesmo havendo problemas de superlotação no João Paulo II, referência estadual localizado na capital, Porto Velho.
Esse contraste entre hospital superlotado e unidade com baixa ocupação expõe os impasses da política de saúde em Rondônia.
Para Maiorquim, a terceirização da gestão funcionaria como um atestado de incompetência. “O governo, ao classificar o serviço público como ruim, desqualifica aquilo que é responsabilidade dele administrar.”, avalia. A presidente do Conselho Estadual de Saúde (CES/RO), Marli Mendonça, reforçou: “o poder público não pode entregar aquilo que é de sua competência”.
“Nós temos um governo afoito em colocar serviços terceirizados de forma global, em tirar o servidor público concursado daqui, e colocar uma empresa. E nós temos um governo que não cumpre o que acorda. Então isso chegou num limite que todas os funcionários da saúde do estado entenderam que não dava mais. Pior: foi dito pelo governo em reunião que o orçamento da saúde para 2026 iria diminuir”.
O secretário de estado da Saúde, Coronel Jefferson Rocha, confirmou que o orçamento da saúde sofrerá redução em 2026 em sessão ordinária da assembleia legislativa.
A decisão de transferir a administração sem melhorar as condições físicas dos hospitais também foi criticada por Josué Sicsu, presidente do Conselho Regional de Enfermagem de Rondônia (Coren-RO). Ele questionou o objetivo do governo ao comentar a tentativa de terceirização no Hospital João Paulo II, sem focar em melhorias físicas do hospital.
“A questão da estrutura física da unidade, ele entrega para uma empresa privada para trabalhar nas mesmas condições de estrutura física que a gente tem hoje, e isso vai mudar o quê do João Paulo II, pra sociedade, dentro de uma estrutura que não tem condições mínimas para dar suporte de acolhimento?”, indaga Sicsu.
Em abril de 2025 o governo cancelou processo de licitação que definiria empresa para administrar hospitais do estado, dentre eles o Hospital João Paulo II. Segundo a matéria, os objetivos da contratação eram cuidar da parte estrutural dos hospitais, organizar as equipes de trabalho e garantir o atendimento médico.
Dois anos antes, em 2023, o Ministério Público de Contas (MPC-RO) e o Tribunal de Contas do Estado (TCE-RO) realizaram vistoria surpresa no hospital, e constataram condições precárias de infraestrutura e superlotação. A inspeção foi solicitada após divulgação de vídeo que mostra pacientes sendo atendidos em áreas abertas por falta de espaço dentro do João Paulo II. Persistiam problemas como falta de equipamentos para operações e identificados em vistoria realizada em 2022. A Rede Amazônica chegou a divulgar imagens de pacientes deitados em colchões espalhados pelos corredores do hospital.
Em 2024, o programa Domingo Espetacular, da rede Record, publicou reportagem sobre o atendimento no JP II, descrito como “um caos completo”. O título da matéria: “Conheça o pior hospital do Brasil”.
“A gente consegue trabalhar, mesmo com a falta de materiais, improvisando muitas das vezes para que o melhor seja feito ao cidadão que foi buscar atendimento, que não tem culpa, e aí acaba culpando os servidores, né?!”, pondera.
“Hoje, quando uma pessoa vem do interior para o João Paulo II, eles se desesperam, e ligam pra gente: ‘Olha, a pessoa tá chegando, aí vai ficar no corredor’, e a gente conversa com as pessoas que hoje o JP está passando por uma questão de estrutura física, mas que ali tem os melhores profissionais.”, relata Marli Mendonça, presidente do Conselho Estadual de Saúde (CES-RO).
Além do distanciamento entre governo e servidores públicos da saúde estadual, o podcast abordou o aumento de contratos emergenciais em relação ao número de servidores concursados, o contraste entre o João Paulo II, referência estadual em urgência, e o hospital de Guajará-Mirim, mais recente, operando com metade da capacidade de leitos.
Embora o podcast não tenha tratado diretamente da permanência dos profissionais no João Paulo II, os questionamentos reforçaram a valorização dos servidores da rede pública e levantaram um temor implícito: a entrada de uma empresa privada na gestão pode colocar em risco os vínculos de médicos, enfermeiros e demais trabalhadores.
O podcast foi transmitido no dia 20 de setembro de 2025.




