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O que não te contam sobre o conflito entre Israel e Irã

O discurso de autodefesa encobre um jogo de poder, no qual a aproximação com extremistas continua sendo encarada como estratégica

O discurso de autodefesa reproduzido por Israel e amplificado por parte da imprensa esconde uma simetria desconfortável: Israel e Irã, embora se oponham, sustentam projetos de soberania que se combatem — e se espelham.

Desde o início da nova ofensiva israelense contra instalações nucleares do Irã, o discurso presente em parte da imprensa brasileira diz que Israel realizou um ataque preventivo contra o Irã, refletindo o discurso oficial.

“‘Não temos escolha’: porta-voz da IDF, general de divisão Effie Defrin, anuncia ataque preventivo a instalações nucleares iranianas em vídeo oficial da IDF. A mensagem reforça o discurso de ‘existência e futuro’ de Israel como justificativa central da ofensiva.”

A Jovem Pan, por exemplo, entrevistou o embaixador israelense no Brasil, Daniel Zoonshine, logo após o ataque, em 15 de Junho. Zoonshine justificou a operação como “preventiva”, e sugeriu que o bombardeio pode ter “evitado ou ao menos adiado uma crise global”. Chamou o governo iraniano de extremista, e reiterou que a ameaça é concreta. Porém, os últimos relatórios da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) afirmaram que há urânio enriquecido, mas sem provas de uso militar.

A fala do embaixador projeta Israel como um justiceiro global cercado por inimigos, enquanto o Irã aparece como promotor do caos, acusado de representar uma ameaça existencial e financiar o Hamas, milícia armada classificada como terrorista pela União Europeia, EUA, e responsável pelo ataque de 7 de outubro de 2023.

Mas o que não se conta é que o próprio governo de Israel ajudou a fortalecer o Hamas. Em artigo publicado pelo Times of Israel, a jornalista Tal Schneider foi direta:

“Durante anos, Netanyahu apoiou o Hamas. Agora, isso explodiu na nossa cara.”.

A intenção, revelada por membros do próprio governo, era enfraquecer a Autoridade Palestina, e impedir qualquer avanço rumo a uma solução de dois Estados. O fortalecimento da milícia foi visto como um trunfo pelo então parlamentar de extrema direita Bezalel Smotrich, atual ministro das Finanças do governo de Netanyahu e líder do partido Sionismo Religioso. Mesmo Netanyahu chegou a declarar que era preciso apoiar o fortalecimento do Hamas para impedir a criação de um estado palestino.

Para o fortalecimento do Hamas, foi permitido a transferência de fundos a Gaza por meio de mecanismos aprovados, principalmente vindos do Catar. Documentos mostram que Israel buscou e valorizou a ajuda do Catar para Gaza nos anos que antecederam 7 de outubro, de acordo com esta matéria do Times of Israel.

Por isso, acredita-se que a presença do grupo em uma das principais áreas palestinas (Gaza) serviu como justificativa para evitar negociações pois, como afirmou o repórter Evan Dyer em análise publicada pela CBC news, apesar do atual governo e o Hamas serem inimigos declarados, ambos se espelharam, ao fornecerem de maneira recíproca uma justificativa para a continuidade do uso da força, da rejeição, ao invés de fazerem concessões a fim de se chegar a uma solução, a uma troca de paz por terra.

Esses dados comprometem o discurso oficial israelense de combate ao terrorismo: mostra que, em um primeiro momento, o Hamas, milícia classificada como terrorista pelo governo israelense, foi integrado ao projeto do próprio governo israelense, que envolvia, além da criação de dificuldades para a solução de dois estados, dar continuidade às ocupações ilegais na Cisjordânia para anexação de território.

No outro lado do espelho, o Irã

O Irã tem papel ativo nessa história. O financiamento iraniano ao Hamas é real, consistente e estratégico. Como explicam as análises da Council on Foreign Relations (CFR), centro de pesquisa e análise política citado por jornais como o Financial Times, Washington Post, etc., o apoio ao Hamas — assim como ao Hezbollah e a grupos xiitas do Iraque e do Iêmen — faz parte de um modelo de influência regional conhecido como “eixo de resistência”.

No caso do Hamas, apesar das diferenças religiosas (o Irã é uma teocracia xiita; o Hamas é sunita), o que aproxima os dois é o interesse comum de confrontar o domínio israelense na região. Esse apoio ajuda o Irã a se projetar além das fronteiras e a desafiar a ordem regional pró-EUA. Em outras palavras, a relação é vista como estratégica pelo governo iraniano.

Paralelamente, o programa nuclear do Irã é uma política de Estado que atravessa diferentes regimes, desde o Xá, ou rei Reza Pahlavi até o aiatolá Ali Khamenei segundo matéria da Agência Brasil. O programa, portanto, é encarado como uma afirmação de independência tecnológica, energética e política, e qualquer ataque ao programa é encarado como um ataque á independência do país.

Ali Khamenei inspeciona avanços da indústria bélica nacional em Teerã. Para o Irã, o domínio tecnológico em defesa é parte essencial na disputa por influência no Oriente Médio. Fonte: (© khamenei.ir)

No centro do impasse: negar ao outro o que reivindica para si

Enquanto o Irã deseja a autonomia que Israel já possui, Israel vê qualquer passo iraniano nessa direção como ameaça existencial. O resultado disso é um ambiente de tensão estruturado por políticas de Estado, e não por surtos de violência.

Israel, que não assinou o Tratado de Não Proliferação Nuclear, é apontado como detentor de um arsenal atômico. Ainda assim, jamais foi submetido às sanções e inspeções que recaem sobre o Irã — que é signatário do tratado e busca manter acordos com a Agência Internacional de Energia Atômica, a AIEA.

Como já foi dito antes, o programa nuclear iraniano é uma política de Estado, uma afirmação de independência tecnológica, energética e política, apesar dos índices de urânio enriquecido despertarem desconfiança, e do histórico de violações verificadas pela, a AIEA.

Como escreveu o historiador Moniz Bandeira sobre o projeto nuclear iraniano, citado na matéria da Agência Brasil: “É uma afirmação do orgulho persa contra a tutelagem do Ocidente.”. A tutelagem em questão é especificamente a dos EUA, descrito por Aiatolá Khamenei, autoridade máxima no Irã, como o “Grande Satã”, metáfora utilizada para descrever o Estado americano como instigador de políticas desestabilizadoras na região, símbolo da arrogância ocidental.

Por outro lado, Israel parece buscar o monopólio do dissuasivo nuclear como parte da estratégia de continuidade e domínio no Oriente Médio.

O programa nuclear israelense nasceu a partir da percepção do primeiro Primeiro-Ministro, Ben-Gurion, de que Israel precisava compensar sua desvantagem territorial e populacional com ciência e tecnologia. Como o estado israelense é adepto de uma política de “opacidade nuclear” — o que significa que são proibidas as inspeções externas sobre seus reatores — não dá para saber os limites do programa, mas a estimativa é de que possua 90 ogivas.

A busca por garantias de existência, aliada á percepção de Israel sobre a necessidade de um projeto nuclear para tentar evitar que outro país ataque, ameaçando reagir com força maior — costuma ser associada a um trauma coletivo, o Holocausto, pano de fundo para o estabelecimento da controversa Doutrina Begin, uma política de ataque preventivo e de contraproliferação de armas de destruição em massa.

De acordo com esta matéria da BBC, o ataque ao reator Osirak no Iraque (1981) é considerado a primeira aplicação dessa doutrina, formulada para impedir que nações hostis a Israel adquiram essas armas. Na época, as autoridades argumentaram que o Iraque não estava buscando energia nuclear pacífica, e que dados de um relatório da inteligência indicavam que os iraquianos poderiam começar a fabricar armas nucleares no espaço de um ano.

A Doutrina Begin segue orientando ações como a operação “Rising Lion”, que em junho de 2025 destruiu instalações em Natanz e Arak, no Irã, de acordo com notícia do canal Infomoney. O governo israelense acusou o Irã de buscar a militarização de seu programa atômico.

Visto que a Doutrina Begin foi estabelecida como politica de Estado, e operada contra países vizinhos acusados de enriquecerem urânio para fins militares, sem prova, especialistas avaliam que as operações israelenses de ataques preventivos seguem uma lógica diferente do discurso oficial.

Citado na reportagem da Agência Brasil, o cientista político, autor de estudos sobre a Ásia e o mundo islâmico, avalia:

“Israel não aceita que nenhum dos seus vizinhos tenha indústria ou poderio econômico para se tornar uma potência hegemônica na região. Para ter hegemonia, Israel não depende só que o país não tenha armamento nuclear, depende também que o país esteja sempre empobrecido”

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