“Prefeito Tik Tok”: Leo Moraes, entre a popularidade digital e a credibilidade do governo
Entre o marketing digital e a administração pública, Leo Moraes afirma que boa comunicação só se sustenta com entrega real.

Quase 10 meses se passaram desde a posse de Leo Moraes na prefeitura de Porto Velho. De lá para cá, Leo procurou diálogo com políticos da esquerda, da direita, se aproximou de adversários da última eleição e tem ganhado bastante espaço na web. O vídeo de divulgação do show da Joelma em comemoração aos 111 anos da cidade, sozinho, acumula mais de 700 mil visualizações, uma cifra comparável à de influencers. Talvez por isso ele passou a ser chamado de “Prefeito Tik Tok”.
Ainda assim, o apelido parece carregar um sentido mais… ácido, como uma tentativa de derreter a máscara de gestor para revelar um influencer: alguém que governa pelo carisma, não pela gestão, e por isso coloca tanta ênfase na comunicação.
Você pode conferir este assunto e outros mais na entrevista do prefeito Leo Moraes ao podcast Resenha Política, apresentado pelo jornalista Robson Oliveira, disponível no Youtube (clique aqui).
Na entrevista, Moraes busca projetar a imagem de um gestor voltado à conciliação, menos interessado em embates partidários e mais em resultados administrativos — embora não deixe de reconhecer a existência de antagonismos, referindo-se a críticos como “mensageiros do caos”, os “viúvos e viúvas de outros tempos”. É possível que estes mensageiros se vejam contrariados ao ouvi-lo afirmar que “não existe comunicação sem um bom trabalho”, e que os internautas “dão mais enfoque ao que é secundário como forma de apresentação”. Sim, isso é possível pois não existiria “Prefeito Tik Tok” sem visualização.
No entanto, a mensagem dele pode soar um pouco confusa.
Moraes afirma que mesmo sem falar das realizações da prefeitura para a tela, a boa recepção nas redes se dá por conta do reconhecimento público nas ruas, e em contrapartida, as redes o acolhe pela forma como entrega o conteúdo, caso contrário, seria puro festim. Não é bem assim.
Segundo pesquisa do senado e da Câmara dos Deputados, realizada em 2019, as plataformas da Meta influenciam cerca de 45% do eleitorado brasileiro. Em 2025, portanto, seria mais adequado reconhecer que a comunicação digital do prefeito é, por si só, uma forma de realização – e não trata-la como um mero efeito colateral de sua gestão, dada a importância das plataformas para a comunicação pública. Fora isso, há o fato de a “persona” conhecida e popular ser o “Prefeito Leo Moraes”, não o indivíduo, e, portanto, toda ação publicada neste perfil deve ser, necessariamente, reconhecida como realização da prefeitura. Ou não existe separação entre o público e o privado na gestão?!
Antes de continuar, vamos falar um pouco sobre o conceito de “persona”, fundamental para o marketing digital. “Persona” designa um personagem semifictício, que representa o cliente ideal de uma marca, com características, comportamentos e necessidades baseadas em dados, ou seja, existe uma ciência por trás de cada reel e story compartilhados.
Se o prefeito tem evocado com sucesso símbolos de nossa identidade regional para nos representar (e nós é quem somos os clientes), isto se dá não só pelo carisma dele, mas graças à uma equipe de profissionais pagos com dinheiro público também, e principalmente, graças ao reconhecimento desse público (ou parte dele).
Portanto, relegar à comunicação um papel secundário de “não-realização”, como foi feito no início do podcast, pode até soar negligente.
Na entrevista, o prefeito dá a entender que busca estabelecer uma administração pública e independente da politicagem egoísta do Q.I (quem indica). Essa ênfase ao papel do estado gestor deve ser reconhecida igualmente na fala do prefeito, deixar claro que as campanhas de mídia são sim fundamentais para a instituição.
Em outras palavras: se está seguro do trabalho que tem apresentado, o melhor é reconhecer a importância fundamental das redes sociais.
Passado o plano da comunicação, o podcast levanta uma questão mais concreta: até que ponto a proposta de uma administração mais técnicas é viável?
Leo Moraes tem se mostrado aberto a diálogo com diferentes instâncias do poder público – mesmo quando situadas em polos opostos do espectro político. O projeto do hospital universitário, articulado com a Presidência da República, e o contato junto ao deputado federal Coronel Chrisóstomo para liberação de emendas reforça o compromisso com objetivos mais republicanos, conferindo um caráter mais pragmático à sua gestão.
No entanto, dentro do município, há sinais claros de resistência. As alianças e disputas — especialmente na Câmara de Vereadores — podem colocar à prova a promessa de conciliação e de estabelecimento de política educacional mais burocratizada e independente de indicações. Não à toa, o jornalista Robson Oliveira, o apresentador, observou que “tem muita gente trabalhando com vereador e que espera, vamos ser bem sinceros, um retorno”.
Apesar de tudo, o discurso de Leo Moraes transmite otimismo e propósito, e sua disposição ao diálogo aponta para um governo que busca somar força em meio à diferença. Ainda assim, a consolidação de seu projeto de governo depende da capacidade de mobilização da política local sem que se imponha o velho compasso de sempre.




